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Twisted Frequency – Sobrevivendo ao meu primeiro Festival

Por @rayssadealmeida

A Nova Zelândia tem sido minha casa pelos últimos 8 anos. E como todo brasileiro que decide morar em outro país, eu aprendi – as vezes da maneira mais difícil – a me conectar e compreender a cultura tão bonita desse país. Foi então que, no auge dos meus 32 anos, eu decidi fazer coisas que jamais tinha feito. Foi aí que o Twisted Frequency Festival entrou na minha lista de desejos.

Pra aqueles que, como eu, não são tão familiarizados com a idea, Twisted Frequency é um festival que há 8 anos acontece na Ilha Sul da Nova Zelândia, no Cobb Valley – região de Nelson. São 5 dias de muita música, arte, banho de rio e sem energia ou recepção de celular.

Pra mim que nunca tinha acampado, e que não conseguia imaginar uma vida sem chuveiro, internet e secador de cabelo, “sobreviver” ao Twisted Frequency se tornou uma meta de fim de ano.

O festival – que mistura Psy Trance, Techno, Drum and Bass e dezenas de outros estilos musicais em 4 palcos montados no meio de um vale, traz tambem artistas plasticos, poesia, stand up comedy, além de workshops, chill zones com yoga e atividades, galeria de artes e stands com pequenas empresas.

Particularmente falando, música eletrônica nunca foi meu forte. Brasileira raiz, amo MPB e, claro, um funk e sertanejo. Dançar com as mãos nunca foi pra mim. E a música, meus amigos, toca 24 horas por dia.

Acampamento visto de cima. Imagem cedida – Twisted Frequency 2020/2021

No primeiro dia, o portão abria as dez da manhã. Chegamos por volta das oito e um fila de carros nos avisava que estávamos no lugar certo.

Centenas de carros estacionados na pequena estrada rural, em meio aos pastos. As pessoas já estavam praticamente acampadas na fila. Pra fazer a espera menos maçante, debaixo de um sol de 30 graus no verão neozelandês, as pessoas faziam o que podiam. Jogavam bola, dançavam, cantavam, andavam de bicicleta e skate.

Andre, nosso primeiro novo amigo do festival, prefere vir sozinho para eventos como este. Imagem: Arquivo Pessoal

Assim conhecemos o colombiano Andres. Ele passava de bicicleta quando reconheceu uma música brasileira que tocávamos. Como se já nos conhecesse, Andres parou a bicicleta, nos abordou e começou a jogar bola com nosso grupo. Embora tenha vindo com um grupo de amigos, ele disse que preferia andar sozinho, assim teria mais chances de conhecer novos pessoas, como eu e meu grupo.

Depois de 5 horas parados, o trânsito começou a andar. Por volta das 2 horas da tarde, foi quando começamos a montar nosso acampamento. O sol, embora muito bem vindo, foi também um dos meus maiores desafios. Imagine, 5 dias de festa, você vai dormir as 5 da manhã e tem que acordar às 8h, porque o calor te impede de continuar dentro da sua barraca.

Por razões como essa era fácil de encontrar ‘ravers’ cochilando na sombra. A organização, claramente ciente da situação, construiu vários pontos de madeira reciclada onde as pessoas poderiam ficar durante o dia pra se esconder do sol.

O Twisted Frequency não somente se preocupa com o bem estar do seu público, mas também da natureza. Os banheiros, construídos com madeira e numa estrutura elevada, eram mais comfortaveis do que os banheiros quimicos. Todo o lixo produzido no festival era depositado nas lixeiras recicláveis. Para depositar o que não poderia ser reciclado, havia uma pequena taxa a ser paga. Tudo isso para incentivar o consumo responsável e não deixar nenhum rastro na natureza.

O Rio que atravessa o vale era popular durante o festival, onde as temperaturas chegaram aos 30 graus. Imagem: Rayssa Almeida

A falta de energia e água quente para banho não assustou as mais de 2 mil pessoas que atenderam o evento – isso fora os voluntários. O rio que atravessa Cobb Valley era bem popular. Nas primeiras horas do dia, quando o sol já estava alto e quente, já era possível ver pessoas no rio, muitas que não haviam sequer dormido ainda.  Muitas pessoas não se preocupavam em usar roupas de banho, a nudez era tratada com naturalidade e era muito comum de se ver. Era como se as pessoas se sentissem livres por ser quem são, em um ambiente feito exatamente pensando nelas.

Know your stuff completou 1 ano operando legalmente na Nova Zelandia. Imagem: Know Your Stuff Website

O consumo de drogas recreativas é comum em festivais deste tamanho ao redor do mundo. Ao invés de reforçar a política contra os entorpecentes no evento, a organização – cumprindo com a lei neozelandesa – tinha a disposição de todos uma tenda do ‘Know your Stuff’ composta por profissionais especializados no teste de drogas recreativas para que o usuário pudesse saber que tipo de substância ele estaria consumindo e como ela afetaria seu organismo. Tudo o que você tinha que fazer era levar o entorpecente para ser testado, sem julgamentos e com todo o sigilo. A iniciativa sem fins lucrativos, acontece em quase todos os festivais da Nova Zelândia e é aprovada pelo ministério da saúde.

Cerimonia de Abertura. Imagem cedida: Twisted Frequency 2020/2021

Conectado com a natureza e as raizes da população Maori na Nova Zelândia, da cerimônia de abertura até os artistas que se apresentaram traziam consigo uma imensa bagagem cultural. Era como se o Twisted Frequency tivesse criado um universo paralelo onde todos podiam conviver com as diferenças e ser eles mesmos sem se preocupar com a opinião alheia.

Nos 5 dias de festival, que aconteceu do dia 30 de Dezembro de 2021 até dia 3 de Janeiro de 2022, não somente se podia ver as cores vibrantes e as luzes que muitas vezes vinham com as roupas dos ‘ravers’, mas um grande espaço para se conectar com a natureza e si mesmo.

Galeria de Arte instalada no festival. Imagem: Twisted Frequency 2020/2021

A estrutura colocada nos 4 palcos foi criada para impressionar. No palco prinicipal, uma enguia feita toda de madeira podia ser vista de longe. A cobertura era vazada, criando uma especie de quebra-cabeca de sombras no chao durante o dia. Um palco LGBTQ tambem estava presente com apresentacoes, comédia e musica.

O show de luzes fez toda a diferença na minha experiência. Um enguia toda iluminada e movida por pessoas passeava entre os palcos, criando um espécie de vale magico. Capas cobertas de glitter, unicórnios, ursos de pelúcia, borboletas, fadas, personagens de filmes e muitas outras fantasias estavam por toda parte. Simplesmente facinate.

A arte estava em todos os cantos do festival. Galeria, artistas de grafiti, malabaristas de fogo, equilibristas, artesãos, skatistas. Você imagina, eles tinham. Passar as tardes conhecendo as tendas que ficavam na parte central do festival era, sem dúvida, uma das minhas partes favoritas!

O palco principal era popular entre os que foram para dancar. Imagem: Lee Gingold/Twisted Frequency 2021/2022

Para os amantes de música e raver’s veteranos, Twisted Frequency era simplesmente o paraíso. Todos os dias era possivel ver pessoas dançando nas primeiras horas da manhã. O sistema de som era potente e preciso. As projeções visuais eram criativas e bem colocadas. Era como se o universo fosse criado para o público, e a trilha sonora era o que os mantinha conectados consigo mesmos.

Twisted não só tinha uma equipe médica disponível 24 horas por dia, mas um espaço denominado ‘PsyCare’. Em meio a tanta música, informação, falta de sono e ‘bad trips’, PsyCare era o lugar para se estar quando você precisava de um tempo pra si mesmo. Colchões, ursos de pelúcia, cobertores e profissionais da saúde como psicólogos e terapeutas ocupacionais. Eu mesma muitas vezes me acolhi naquele espaço para buscar um pouco de descanso e conversar com os profissionais sobre a intensidade do evento. Os voluntários eram acolhedores e profissionais e a PsyCare se tornou um dos meus lugares favoritos!

Ben, ja veterano em Festivais, e seu amigo Joe que veio ao Twisted pela primeira vez. Imagem: Arquivo Pessoal

 

Ben, um britânico de 30 anos que participa de festivais como esse por anos e vem ao Twisted Frequency pela segunda vez, explica o porque do festival ser o evento mais aguardado do ano – “Se tem uma coisa que me atrai no Twisted, é a potencia dos som. O Meu Drum and Bass precisa desse grave“, diz enquanto move os ombros se rendendo ao “boom-boom” no fundo da nossa conversa. Ele continua -, “As pessoas sabem que é um lugar especial e eles vem sabendo o que esperar. Eles sabem que o lugar e seguro e ha lugares para relaxar, embora possa ser um pouco confuso para viajantes de primeira mensagem. Como alguém que ja foi para muitos festivais, eu sei que esse lugar é magico e todo mundo esta se divertindo” – diz ele já quase no meio das centenas de pessoas dancando como se não houvesse amanhã.

Skatistas eram uma das grandes atracoes artisticas do Festival. Imagem: Lee Gingold/Twisted Frequency 2021/2022

Pensado para seu público, Twisted Frequency não decepcionou e foi, por fim, umas das experiências mais engrandecedoras que eu pude vivenciar até então. Para ‘raves’ de primeira viagem como eu, pode ser um tanto quanto intenso, mesmo porque a experiência é imergir em um mundo completamente diferente do que estamos acostumados.

É abrir mão do luxo da sua casa, pra ter o luxo de dormir debaixo das estrelas e acordar olhando a natureza da janela da sua tenda.

É dançar pela vontade de dançar. É ser você mesmo, sem se preocupar com o que os outros pensam, porque os outros estão, também, em conexão com si mesmos.

Recomendo!

@rayssadealmeida

Rayssa Almeida

Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas. Na NZ por 8 anos, living the dream. Gosta de cantar, escrever e contar historias.

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