Nova Zelândia

Carga Mental: o trabalho invisível das mulheres

Mulheres ainda gastam 2.5 horas a mais do que os homens nas tarefas de casa.

A organização diária de tarefas corriqueiras da casa, do relacionamento e da família tem nome: carga mental. Apesar de essa tarefa não ser nova, o termo ganhou maior destaque em 2017 quando a cartunista francesa, Emma, publicou a obra “The mental load: a feminist comic” trazendo à luz o trabalho invisível feito pelas mulheres.

Logo no começo do livro a autora expõe uma cena que é bastante comum: uma mulher se divide entre cozinhar o jantar ao mesmo tempo em que tenta alimentar duas crianças, enquanto isso o companheiro está sentado no sofá tomando uma taça de vinho. 

Quando a situação foge do controle e a comida vasa da panela para o chão o companheiro pergunta à mulher: 

carga mental

 

 

 

 

 

Planejar dá trabalho 

Pode parecer inofensivo, mas quando o homem deixa por conta da mulher a decisão de delegar, ou não, coisas para fazer, ele está deixando nas mãos dela a tarefa de planejar e organizar tudo isso antes mesmo de delegar a função. Isso, por si só, já é exaustivo. Se o casal tem dois filhos e a mulher está cozinhando o jantar, é óbvio que ela vai precisar de alguém cuidando das crianças. 

Planejar dá trabalho, tanto quanto executar, e deixar essa tarefa nas costas da mulher faz com que no final ela ainda seja responsável por 75% do trabalho, ainda que ela esteja delegando funções.

Carga mental não existe só para quem tem filhos

O trabalho de planejar e organizar tarefas não é um fardo apenas das mulheres que são mães, embora esse trabalho se duplique nesses casos.  Mulheres sem filhos, mas ainda assim em relacionamentos, tendem a acumular a carga mental da mesma forma.

São elas as responsáveis por saber o que falta da casa para a compra do mercado, quando tem conta vencendo para pagar, quais parentes fazem aniversário naquele mês (não só os da família dela, mas os da família dele também. Mal sabem as sogras que são as noras que lembram seus aniversários). 

Ainda tem ração pro cachorro? Meu companheiro tem roupa limpa para ir trabalhar? Precisamos comprar mais meias? Tem remédio em casa? Precisamos de pasta de dente? Cada detalhe é pensado, planejado e executado e na grande maioria dos casos isso é feito pela mulher.

Mudança de mentalidade social para avançar

Claro que tem homem que divide essa tarefa com as companheiras, que entende o peso desse trabalho invisível e que faz sua parte para minimizar isso, mas a real é que esses homens ainda são poucos. De acordo com o Instituto Francês de Estatísticas, as mulheres ainda gastam 2.5 horas a mais do que os homens nas tarefas de casa.

Uma grande parte do problema é estrutural na nossa sociedade: homens não são ensinados a ser parte disso. Eu sempre me lembro de discutir com a minha mãe sobre a injustiça de ter eu que ajudar na cozinha enquanto meu irmão estava na sala assistindo televisão. 

Educar para mudar

É sobre educar homens para que eles sejam também responsáveis por essa tarefa organizacional que toma tempo e cansa a mente.  Parte dessa mudança também depende das mulheres. As mães de meninos precisam educá-los para compreender essa dinâmica e entender que eles são tão parte disso quanto às mulheres. 

Já quem é mãe de menina, vai precisar ensinar que elas não precisam se exaurir sozinha e que é preciso, sim, que isso seja um trabalho em equipe. Que elas cresçam não aceitando nada além disso: companheirismo em pé de igualdade.

Não aceitar as coisas como elas são é um passo importante em direção à uma mudança mais efetiva. Não falo aqui sobre arrumar briga com o companheiro ou de simplesmente virar uma chave mental e parar de se preocupar com tudo, afinal, nenhuma dessas coisas são, de fato, construtivas. 

Se cobrar menos e deixar a água rolar

Não é fácil, mas às vezes deixar a água rolar e esperar para ver no que vai dar pode ajudar àqueles a sua volta a começarem a se moverem para ser parte do processo. Não estou falando de deixar algo importante, que vá prejudicar você ou sua família, mas talvez pequenas coisas como: comprar meias novas! 😅

Usar o diálogo e o exemplo como estratégia de mudança no dia a dia pode fazer uma grande diferença. 

 

Flávia Bonturi Previato

Mulher, mãe, jornalista e educadora.

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